O BOI TEIMOSO

Era um tropeiro solitário, sem sua tropa, mas, tangendo um boi, negro, que gingava no seu trote cadenciado, olhar fixo , mirando o chão , e parecia fatigado da andança, sendo levado pelo tropeiro, ao matadouro municipal, para ser abatido. Babava pelas comissuras, deixando um rastro na sua retaguarda. Ali na rua onde eu nasci e morava, passavam boiadas , sendo tocadas para o matadouro. Para mim era um mistério de onde vinham, e para onde iam. Hoje sei que eram levadas ao matadouro para serem abatidas e distribuídas á população. Meu pai, mesmo, tinha nessa rua um pequeno açougue, e diariamente vinha o caminhão frigorífico, do Matadouro Municipal, cujo entregador com uma capa e capuz, toda ensebada e ensangüentada, deixava meia parte de um boi, que diariamente era destrinchado em cima de um grande toco ensebado e escalavrado, de muitas carnes cortadas, de mais ou menos um metro de diâmetro, onde as partes eram talhadas , retirado o filemignon, a alcatra e todas as partes , que eram colocadas na câmara frigorífica, para vendê-las no dia seguinte.
Um dia, como eu fazia toda tarde, voltava da “fazendinha” da tia Justina , onde buscava leite tirado na hora, pelo primo Erasmo. Em dado momento eu vinha pela calçada esquerda da Rua Caramuru, depois da casa dos Salomone e fiquei apavorado ao ver que o boi a uns cinqüenta metros de mim apertou o passo e desviou o andar para o meu lado, quando ouvi o peão gritar, não corra nem entre em casa nenhuma senão o boi vai entrar junto! Apesar da advertência minha primeira providencia foi procurar a primeira porta aberta que encontrei e embarafustar pela mesma. O boi também não titubeou e no momento seguinte adentrou a casa em meu encalço. Senti seu bufo, resfolegando ás minhas costas. O aposento era a sala da casa e aí ele destruí cadeiras, mesa, e cristaleira, no caminho A próxima porta que
vislumbrei dava para o quarto da casa com uma cama de casal dois criados e o guarda-roupa. Não tive outra escolha e embarafustei , com o boi no meu encalço. Contornei a cama pulei-a tendo o boi feito o mesmo, destruindo a mesma. Sai do quarto atabalhoado, e a próxima porta era a da cozinha, que adentrei com o boi atrás, destruindo cadeiras, o guarda-comida, derrubando o paneleiro de alumínio. Sai pela porta da cozinha, que era estreita e dava para a viela nos fundos da casa que interligava outras casas dessa vila e terminava numa passagem uns 50 metros à frente onde encontrava novamente a rua principal. Nessa porta o boi não conseguiu passar.
Tremendo e apavorado, dei o máximo de velocidade às minhas pernas e só parei quando entrei em casa, o coração disparado, a respiração ofegante, sem voz, para poder explicar â minha mãe atônita, o que tinha acontecido. Para poder provar a ela minha aventura, só restou a camisa babada pelo boi e suja nas costas. Para encurtar, no dia seguinte nosso café da manhã não tinha leite para acompanhar e eu fiquei alguns dias com o apelo do tropeiro ressoando na mente para não entrar em nenhuma porta. Fiquei sabendo, depois, pelos vizinhos que um boi preto havia destruído a casa do Seu Ezequiel que ainda procurava atônito os responsáveis pela odisséia de destruição de sua casa, querendo reparos pela sua desgraça.

EA- Nov/2006

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